Às vezes temos que, simplesmente, deixar tudo desmoronar.

Postado em jun 15, 2016 - Blog

2dente de leão

Pensar que podemos encontrar algum prazer duradouro e evitar a dor é o que o budismo chama de samsara, o ciclo inútil que gira e gira, infinitamente, e nos causa tanto sofrimento. O sofrimento é inevitável enquanto acreditarmos que as coisas/situações/pessoas permanecem, que não se desintegram e que podemos contar com elas para satisfazerem nossa ânsia de segurança.

Não, não podemos contar com elas. A impermanência é a única certeza que carregamos. Tudo se desfaz, não existe base sólida que nos sustente em pé. Mas, calma, isso não é uma má notícia. Quando despertamos para a falta de base de nossa situação, podemos caminhar nesse território desconhecido e relaxar. Como? Através do entendimento de que tudo está sempre em transição e que esse estado descentralizado e indefinido representa a situação ideal, a situação verdadeira, aquilo que É.

Qualquer um que se coloque à beira do desconhecido, inteiramente no presente e sem ponto de referência, experimenta a sensação de não ter onde se apoiar. É somente aí que nossa compreensão se aprofunda, que descobrimos que o momento presente é um lugar bastante vulnerável e essa experiência pode ser completamente terna e desconcertante ao mesmo tempo. É só ali, diante do abismo, que nos deparamos com nossa coragem de morrer continuamente. Essa sensação altamente aterrorizante é libertadora, pois, enfim, paramos de fugir do medo.

Ninguém nos aconselha a parar de fugir do medo. Raramente somos estimulados a chegar mais perto, a simplesmente estar ali, a nos familiarizarmos com ele. O conselho que geralmente recebemos nos diz para adoçá-lo, atenuá-lo, tomar um comprimido ou procurar distração. Mais cedo ou mais tarde compreendemos que, embora não possamos fazer com que o medo seja agradável, é ele que acabará por nos colocar diante de todos os ensinamentos de que necessitamos. Portanto, considere-se com sorte na próxima vez que encontrar o medo, pois é nesse ponto que nasce a coragem. Pessoas corajosas são aquelas familiarizadas com o medo.

Ficar nesse desequilíbrio é o caminho do verdadeiro despertar. Ficar na incerteza, pegar o jeito de relaxar no meio do caos, aprender a não entrar em pânico – esse é o caminho espiritual. Devemos reconhecer tudo o que surge na nossa vida sem julgamentos, sempre nos voltando para a abertura do momento presente. É exatamente isso que fazemos na meditação. Os pensamentos surgem e nós, em vez de reprimi-los ou ficar obcecados por eles, reconhecemos sua existência e deixamos que se dissipem. Então, voltamos a estar simplesmente ali. Depois de algum tempo, passamos a nos relacionar dessa forma com o medo e com a esperança em nossa vida cotidiana. Sem saber como, paramos de lutar e relaxamos. Interrompemos o diálogo interior e voltamos ao frescor do momento presente. Abrir e relaxar surja o que surgir.

Na verdade, quando relaxamos naquilo que É, abdicamos da necessidade do controle, deixamos que nossos conceitos e padrões habituais desmoronem. Passamos a compreender que entre o surgimento do desejo compulsivo – agressão, solidão, dor, desespero – e a atitude que tomamos em resposta, existe um algo (um tempo). Nesse algo, devemos nos conter para experenciar a situação em profundidade, sem uma necessária resposta imediata. Quanto mais observarmos nossas reações emocionais em cadeia e compreendermos como funcionam, mais fácil será conter-se nesse algo. Simplesmente parar em vez de preencher imediatamente o espaço representa uma experiência transformadora, pois não precisaremos mais reagir conforme nossos padrões e memórias arraigadas. Abrimos, então, espaço para o novo.

O que a prática da meditação nos traz é o entendimento, mais sensorial do que racional, de que, independentemente do que estamos experimentando naquele momento, tudo é impermanente – anitya. A impermanência é a virtude da realidade. O sentido está em nos relacionarmos adequadamente com o estado em que estamos. Tanto o entusiasmo quanto o desânimo podem e devem ser celebrados. Podemos ser grandes e pequenos ao mesmo tempo, sem fazer juízo de valor disso. Essa sensação nos está disponível a todo tempo através do frescor, da abertura e do encantamento em nossas percepções frente ao real. Nesse ponto, envolvidos pelo estar e sentir a presença do agora, passamos a vivenciar a total confiança no sagrado do mundo, no fluir da vida, no entendimento de que tudo É.

Quando experenciamos o agora, envolvidos nessa percepção, sentimos um bem estar e um encantamento diante de tudo o que a vida nos apresenta. Passamos a encarar o que nos acontece como material de trabalho. O observador em nós entra em ação e não mais reagimos de acordo com nossos sankaras – de apego ou de aversão. Não hesitamos nem batemos em retirada diante do que nos acontece. Permanecemos ali – dentro de nós mesmos – abertos, puros e envoltos na alegria da presença, sem nos identificar com antigos padrões do bom ou do ruim, do apego ou da aversão. Só ali… contemplando a realidade e receptivos ao agora. O silêncio normalmente é um reflexo dessa sensação, porque envoltos na contemplação do que É, não mais precisaremos recorrer às palavras (o que normalmente fazemos por nervosismo ou por padrão).

Ser vivo é se jogar para fora do conhecido a todo instante. Viver plenamente é estar sempre em terra de ninguém, é experimentar cada momento como algo novo e fresco. Viver é estar disposto a morrer sempre e mais uma vez. Quando encaramos pensamentos, sensações, situações com abertura, sem nos identificarmos com a sensação revivida, fazemos amizade com nosso próprio reflexo no espelho e nos encaramos com olhos de amorosidade e compaixão. Ao nos olharmos assim, a atmosfera amorosa é tamanha que se expande para nossa casa, nosso bairro, nossa cidade, nosso país, para o mundo! É mettā-bhāvanā – amor compassivo que extrapola o eu e influencia energeticamente todo o planeta. Assim, nos desintegramos do eu personalíssimo para, enfim, nos desmancharmos no Todo.

Aliny Mocellin
Idealizadora e Guardiã do Terraluz

Inspirações: Retiro de Meditação Vipassana (maio de 2016); livros da monja budista Pema Chödrön (que tanto me acompanham nos últimos tempos).